Cabo Delgado: Macomia continua a viver sob ameaça constante de ataques terroristas e sequestros



 
 O distrito de Macomia continua mergulhado num clima de medo e incerteza, marcado pela persistência de ataques terroristas e pelo aumento de casos de sequestro de crianças e raparigas, uma realidade que tem vindo a comprometer profundamente a vida das comunidades locais.


Relatos recolhidos no terreno indicam que a situação de insegurança está a travar o desenvolvimento de diversos sectores, agravando ainda mais as já frágeis condições de sobrevivência da população. As principais atividades económicas, como a pesca e a agricultura — base de sustento para a maioria das famílias — encontram-se seriamente afetadas.


“O assunto da guerra continua, não está parado nada. No comércio, estamos a sofrer. Estamos a tentar, mas por causa da guerra não está tudo correto”, afirmou André Tomé, residente em Macomia, descrevendo as dificuldades enfrentadas no dia-a-dia.

O medo é constante e, segundo os moradores, já faz parte da rotina. A insegurança é tal que até o descanso se tornou um luxo difícil de alcançar.


“Não estamos bem, nós, distrito de Macomia, não estamos bem. Aqui não há sono. Qualquer barulho assusta. Até hoje ainda não entrou na minha cabeça o que está a acontecer”, lamenta Zeza Ussene, outra residente, visivelmente preocupada com a situação.

Além dos ataques armados, o sequestro de menores surge como uma das maiores inquietações das comunidades. Casos recentes continuam a ser reportados, incluindo o rapto de uma jovem ocorrido há cerca de duas semanas, aumentando o desespero entre as famílias.


Para os residentes, a presença contínua de grupos armados impede o acesso seguro às machambas e limita a actividade pesqueira, colocando em risco a segurança alimentar das comunidades. Juma Sufo, também residente, destaca que muitas famílias já não conseguem produzir nem garantir o seu sustento básico devido ao medo de novos ataques.


Entretanto, a possível retirada das forças ruandesas destacadas em Cabo Delgado está a gerar apreensão entre a população. Segundo informações avançadas pela agência AIM, o Ruanda advertiu que poderá retirar as suas tropas caso não haja financiamento internacional suficiente para sustentar a missão de combate à insurgência.


As forças ruandesas foram mobilizadas em 2021, a pedido do Governo moçambicano, para apoiar no combate aos grupos armados que têm vindo a desestabilizar a região, provocando milhares de mortos e deslocados.


A porta-voz do Governo ruandês, Yolande Makolo, referiu recentemente que a continuidade da missão depende de “financiamento adequado e previsível”, levantando dúvidas sobre o futuro da presença militar estrangeira na região.


Perante este cenário, os residentes de Macomia manifestam preocupação e defendem a continuidade das forças no terreno como forma de garantir alguma segurança.


“Enquanto não entendermos bem como a situação está a evoluir, não queremos que essas forças saiam daqui. Elas estão a ajudar a proteger-nos”, reforçou André Tomé.

Na mesma linha, Zeza Ussene apela à manutenção do apoio militar, sublinhando o sentimento de vulnerabilidade vivido pelas comunidades.


“Nós não estamos bem aqui em Macomia. Pedimos que continuem connosco. Precisamos de segurança para voltar a viver normalmente”, disse.

Enquanto isso, o clamor da população ecoa cada vez mais alto, num apelo urgente ao fim do conflito armado.


“Estamos a pedir que a guerra termine já. Já estamos com os olhos vermelhos, com água no pescoço”, desabafam os residentes.


O grito de socorro continua — e, para muitos em Macomia, a paz ainda parece distante.(MRTV)

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