Por Maria da Graça
Crianças e raparigas denunciam terrorismo, casamentos prematuros e insegurança nas escolas durante auscultação realizada em Pemba, no âmbito do Diálogo Nacional Inclusivo.
Crianças e raparigas oriundas de vários distritos de Cabo Delgado afirmaram estar a “chorar pela paz”, durante o Diálogo Nacional Inclusivo para a auscultação de crianças, realizado recentemente na cidade de Pemba. O encontro, organizado pela ROSC, reuniu representantes do Governo, da sociedade civil e do Parlamento Infantil, com o objectivo de recolher contribuições deste grupo social para a construção de políticas públicas e leis mais inclusivas.
Falando no evento, o vice-presidente da Comissão Técnica do Diálogo Nacional Inclusivo, Alberto Ferreira, sublinhou que o processo visa romper com um ciclo de problemas que se repetem há mais de 30 anos em Moçambique, defendendo que o diálogo permitirá que os cidadãos se reconheçam nas leis que vierem a ser produzidas.
Segundo Ferreira, em Cabo Delgado as principais preocupações apresentadas pelas crianças estão relacionadas com o terrorismo, os casamentos prematuros, a necessidade de escolas seguras e a proteção efetiva dos direitos da criança. Garantiu que todas as contribuições recolhidas serão sistematizadas e encaminhadas para que se transformem em propostas concretas de políticas sociais e legislação.
> “Não podemos dar um passo em frente sem ouvir as crianças, que representam cerca de 60% da população moçambicana. Ignorar esta camada seria comprometer o futuro do país”, afirmou.
O dirigente apelou ainda à participação activa de todos os cidadãos, incentivando a submissão escrita de preocupações como forma de fortalecer um diálogo que resulte em mudanças reais. Informou igualmente que o processo já abrangeu mais de nove países da diáspora moçambicana e que, nesta fase, a auscultação está a ser feita de forma sectorial, envolvendo mulheres, crianças, professores, advogados e outros grupos sociais.
Por sua vez, Edna Taubo, esposa do governador de Cabo Delgado, afirmou que o seu gabinete se posiciona como porta-voz das crianças, reconhecendo que o terrorismo constitui um dos maiores desafios da província. Defendeu que as preocupações apresentadas tenham em conta as especificidades locais, sublinhando que as crianças representam a esperança e a continuidade da humanidade.
A representante da ROSC, Mirna Chintsungo, alertou para o impacto devastador da insegurança na vida das crianças, descrevendo uma realidade marcada por recrutamento por grupos armados, violência baseada no género, uniões prematuras e educação fragilizada. Para a activista, a sociedade civil deve assumir um papel central na mobilização da população, garantindo que a inclusão no diálogo nacional seja efectiva e não apenas retórica.
O vice-presidente nacional do Parlamento Infantil e presidente provincial em Cabo Delgado, Marcelo de Flávio, considerou o encontro produtivo, destacando que as crianças careciam de um espaço seguro para expressar os desafios que enfrentam diariamente. Defendeu que o diálogo sirva de instrumento de sensibilização para o Governo, a sociedade civil, os pais e encarregados de educação, de modo que as necessidades das crianças sejam tratadas como prioridade absoluta.
Marcelo acrescentou que as decisões tomadas ao nível governamental e familiar devem reflectir a realidade específica de Cabo Delgado, marcada pela insegurança e pelo terrorismo.
Uma das participantes, Maira Antunes, manifestou esperança de que o diálogo resulte em melhorias concretas, sobretudo para as raparigas, frequentemente expostas ao assédio sexual, à corrupção, ao terrorismo e à falta de acesso a serviços básicos, factores que contribuem para o aumento dos casamentos prematuros.
A jovem apelou às autoridades para que as preocupações apresentadas sejam transformadas em acções concretas, afirmando que as crianças estão cansadas de encontros sem resultados visíveis. Citou como exemplos a persistência do terrorismo desde 2017, bem como a carência de serviços de saúde e educação em várias zonas da província.(MRTV)

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