Mais de 25 crianças desacompanhadas após ataques em Memba refugiam-se em Mecúfi


A violência armada que continua a afectar o Norte de Moçambique voltou a provocar a separação de famílias, desta vez envolvendo 27 crianças que se encontram actualmente desacompanhadas no distrito de Mecúfi, província de Cabo Delgado. Os menores foram separados das suas mães durante ataques ocorridos no distrito de Memba, na província de Nampula, e encontram-se sob protecção das comunidades locais e das autoridades distritais.


A informação foi confirmada pelo Diretor Provincial da Juventude, Emprego e Desporto em Cabo Delgado, Jonas Abujate, durante as comemorações dos 40 anos do Voluntariado. Segundo o dirigente, as crianças poderiam ter-se deslocado para outros distritos considerados mais seguros, mas acabaram por escolher Mecúfi devido à reconhecida cultura de solidariedade da população local.


Abujate destacou ainda que a capacidade de acolhimento da comunidade de Mecúfi não é recente, tendo sido comprovada durante a passagem do ciclone Chido, quando diversas famílias ficaram privadas de bens essenciais. Mesmo em contexto de grande carência, a população partilhou o pouco que tinha, mantendo vivo o espírito de entreajuda que hoje volta a ser fundamental no apoio às crianças deslocadas.


O Governo Distrital de Mecúfi confirmou oficialmente a presença das 27 crianças, classificadas como crianças desacompanhadas, uma vez que se dispersaram dos pais no momento das incursões armadas. O Director do Serviço Distrital de Planeamento e Infraestruturas, Ansumane Juma, esclareceu que as autoridades procederam à inserção dos menores em famílias de acolhimento, estando igualmente a ser garantida assistência alimentar, sanitária e psicossocial, bem como a integração escolar das crianças em idade escolar.


Segundo Ansumane Juma, parte destas crianças apresenta sinais evidentes de trauma, em consequência da violência vivida e da incerteza quanto ao paradeiro dos seus familiares. O distrito confirmou igualmente a ocorrência de pelo menos duas mortes entre crianças deslocadas, casos que continuam sob acompanhamento das estruturas locais. Paralelamente, decorrem diligências junto das comunidades de origem, no distrito de Memba, com vista à localização dos pais e familiares legítimos.


Durante a cerimónia, Jonas Abujate deixou ainda um apelo rigoroso à transparência na gestão da ajuda humanitária, advertindo que qualquer desvio de bens destinados aos deslocados constitui um ato desumano e passível de responsabilização. O governante apelou igualmente ao respeito pela dignidade das vítimas, defendendo que a ajuda humanitária deve ser prestada com ética e confidencialidade, evitando-se a exposição indevida de pessoas em situação de vulnerabilidade.


As celebrações dos 40 anos do Voluntariado em Cabo Delgado serviram também para reconhecer o contributo dos voluntários no apoio às populações afectadas pelo terrorismo, pela pandemia da COVID-19 e pelos recentes ciclones. No mesmo evento, o Governo Provincial procedeu à entrega de uma motorizada ao Conselho Provincial do Voluntariado, na sequência da assinatura de um contrato-programa de apoio multiforme.


O Presidente do Conselho Provincial do Voluntariado, António Dickson Sankara, agradeceu o apoio e garantiu o reforço das ações de capacitação dos voluntários, bem como a intensificação da divulgação da Lei do Voluntariado. Por sua vez, o Governo distrital de Mecúfi reconheceu o papel determinante do voluntariado na resposta às emergências, com destaque para o apoio prestado às famílias afetadas pelo ciclone Chido.


A situação das 27 crianças acolhidas em Mecúfi volta a evidenciar os impactos sociais persistentes do terrorismo no Norte do país, sobretudo ao nível da desagregação familiar, da vulnerabilidade infantil e da pressão contínua sobre as comunidades de acolhimento, num contexto já marcado por sucessivas crises humanitárias. (Moz24h)

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