Aos poucos, a vida começa a retomar o seu
ritmo no distrito de Mocímboa da Praia, na província de Cabo Delgado. Depois de
anos marcados pelo conflito armado, comunidades regressam gradualmente às suas
casas e tentam reconstruir o quotidiano. No entanto, para muitas crianças que
cresceram no meio da violência e do deslocamento, o caminho para a recuperação
ainda é longo.
Uma visita conjunta de representantes das
Nações Unidas e da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC) ao
distrito permitiu observar de perto os progressos alcançados, mas também os
desafios que continuam a marcar a vida de crianças e famílias afectadas pela
guerra.
A delegação — composta pela Coordenadora
Residente das Nações Unidas em Moçambique, representantes do UNICEF e da ONU
Mulheres, bem como pelo Director de Programas da FDC — manteve encontros com
autoridades locais, visitou comunidades e conversou com crianças e jovens que
carregam histórias de deslocamento, separação familiar e exposição à violência.
Nos chamados centros de múltiplo uso, espaços
criados para apoiar crianças afectadas pelo conflito, meninos e meninas
participam em actividades educativas, recreativas e de acompanhamento
pisco-social. Ali, procuram recuperar a confiança, voltar a brincar e
reencontrar a esperança de um futuro melhor.
O Director de Programas da Fundação para o Desenvolvimento
da Comunidade, Adelino Xerinda, explica que a visita permitiu
avaliar no terreno as acções que estão a ser desenvolvidas em parceria com o
UNICEF e com as autoridades locais.
“Conseguimos perceber que o trabalho está a ser feito, mas persistem ainda alguns desafios. Nos centros de múltiplo uso percebemos que as crianças vão precisar ainda mais do apoio psicossocial. É uma actividade que tem de ser contínua, porque o processo de recuperação humana é vagaroso e leva o seu tempo”, afirmou.
Segundo o responsável, muitas das crianças
acompanhadas nestes espaços já começam a demonstrar sinais de recuperação,
resultado do trabalho realizado pelas equipas técnicas. Ainda assim, a
vulnerabilidade permanece elevada, sobretudo para aquelas que viveram situações
traumáticas durante os momentos mais intensos do conflito.
Outro desafio identificado está ligado à
protecção das crianças contra abusos e outras formas de violência. Embora haja
sinais de regresso à normalidade na vila, a situação de segurança continua a
exigir atenção permanente.
“Não podemos afirmar categoricamente que o processo de segurança está totalmente estabilizado. Existe sempre uma situação de alerta e isso significa que estamos num ambiente em que o cenário pode mudar a qualquer momento”, alertou Xerinda.
Além da protecção, o acesso à educação
continua a ser uma preocupação. Entre as necessidades mais urgentes estão a
construção e reabilitação de salas de aula, a presença de professores e a
melhoria das condições básicas nas escolas, incluindo água e saneamento.
A Representante do UNICEF em Moçambique, Mary Louise
Eagleton, destacou que o contacto directo com as crianças e as
comunidades reforça a importância de continuar a investir no seu bem-estar.
“Durante as visitas tivemos a oportunidade de conversar com várias crianças. Elas falaram das suas experiências e de como o deslocamento afectou as suas vidas. As crianças querem aprender, querem brincar, querem segurança e, acima de tudo, querem paz”, afirmou.
Apesar das dificuldades, Eagleton considera
que as crianças demonstram uma notável capacidade de resiliência, mas lembra
que o apoio precisa de ser contínuo para garantir que consigam reconstruir as
suas vidas.
“Quando uma criança é exposta à violência ou a contextos de instabilidade, a resposta deve ser clara: apoio pisco-social, acesso à educação e serviços sociais capazes de acompanhar as crianças e as suas famílias”, acrescentou.
Para a Coordenadora Residente das Nações
Unidas em Moçambique, Catherine Sozi, a visita ao distrito mostrou que a
reconstrução de Mocímboa da Praia vai muito além da reabilitação de
infraestruturas destruídas pelo conflito.
“O que encontramos em Mocímboa da Praia foi uma população que enfrentou grandes desafios, mas que continua a demonstrar uma resiliência extraordinária”, disse.
Segundo Sozi, a recuperação plena da região
depende de investimentos consistentes na protecção da criança, na educação e no
fortalecimento dos serviços sociais.
“A recuperação é possível quando há investimento consistente na protecção, na educação e no apoio pisco-social. Mas sabemos também que os desafios persistem e nenhuma instituição, por si só, consegue responder a esta complexidade”, destacou.
A responsável apelou ainda ao reforço do
apoio internacional para que os esforços em curso possam alcançar mais
comunidades afectadas.
“Proteger as crianças não é apenas uma resposta humanitária. É uma condição para o desenvolvimento sustentável, para a coesão social e para uma paz duradoura”, concluiu.
Enquanto a vila de Mocímboa da Praia tenta
reencontrar o seu ritmo, muitas crianças continuam a aprender, pouco a pouco, a
viver novamente sem medo um processo delicado que exige tempo, apoio e o
compromisso contínuo de todos os parceiros envolvidos.(MRTV)



Enviar um comentário