Mais de 116 organizações da sociedade civil e activistas sociais alertaram, esta segunda-feira, na cidade de Pemba, para o agravamento da violação dos direitos da criança na província de Cabo Delgado, defendendo respostas urgentes e estruturais por parte do Estado para travar o que consideram ser uma crise humanitária prolongada.
O posicionamento foi apresentado durante uma conferência
de imprensa onde foi divulgado um documento conjunto subscrito por diversas
entidades, entre as quais a Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade
(FDC), Fundação Nunisa, APROCOSO, Kutenga, Organização para Sustentabilidade e
Inclusão Social (Ecoinclusão), Fundação E35 Reggio Emilia e a Associação Nthuge
Biz.
As organizações sublinham que, passados cerca de nove
anos desde o início da violência armada na província, as crianças continuam a
ser as principais vítimas, enfrentando pobreza extrema, desnutrição, abandono
escolar, uniões prematuras e separação familiar.
Durante o encontro, foram apresentados dados de 2025
partilhados pela UNICEF, referentes aos distritos de Palma, Mocímboa da Praia,
Nangade e Muidumbe algumas das zonas
mais afectadas pelo conflito.
Os números revelam que:
·
83,7% das crianças vivem abaixo da linha de pobreza;
·
46%
sofrem de desnutrição crónica;
·
60% das crianças entre 12 e 14 anos estão fora da escola;
·
1.824 menores não possuem documentos de identificação;
·
1.109
vivem em uniões prematuras;
·
814
encontram-se desacompanhadas;
·
Há ainda registo de crianças associadas a forças armadas.
Para as organizações, estes dados traduzem “infâncias
interrompidas e sonhos comprometidos”, evidenciando que a violência contra
menores não apenas persiste, como se intensifica nas áreas mais fragilizadas.
Intervindo em nome das organizações, Nirma Nhachungue, da
FDC, afirmou que a protecção da criança em Cabo Delgado está seriamente
comprometida.
“A persistente ocorrência de abuso sexual, práticas nocivas, negligência e exposição à violência extrema demonstra que a vulnerabilidade das crianças está a atingir níveis alarmantes. As comunidades, debilitadas pela insegurança prolongada, já não conseguem assegurar a protecção mínima dos seus menores, perpetuando um ciclo de desprotecção, dor e medo”, declarou.
A responsável recordou ainda casos recentes de violência
contra menores que chocaram a opinião pública, defendendo que tais episódios
evidenciam a fragilidade dos mecanismos de prevenção e resposta.
Face ao cenário apresentado, as organizações formularam
12 recomendações dirigidas ao Executivo, com enfoque na necessidade de:
·
Definir e implementar estratégias céleres e integradas
para pôr fim à violência armada na região;
·
Priorizar a protecção da criança como eixo estratégico
nacional e provincial no contexto da resposta ao conflito;
·
Reforçar o orçamento destinado à protecção infantil em
situações de emergência;
·
Criar mecanismos eficazes e rápidos de registo de
nascimento;
·
Isentar taxas de matrícula escolar e de emissão de
documentos para crianças afectadas pelo conflito.
Segundo as organizações, a falta de documentação e as
dificuldades económicas enfrentadas pelas famílias deslocadas continuam a
excluir milhares de crianças do acesso à educação e a outros serviços básicos.
As entidades defendem que a protecção da criança deve ser
tratada como prioridade absoluta, alertando que o prolongamento da crise
compromete o futuro de uma geração inteira.
No final, reafirmaram o compromisso de continuar a
denunciar publicamente qualquer violação dos direitos da criança e de colaborar
com as autoridades competentes na promoção do bem-estar infantil.
Num contexto de pobreza acentuada, deslocamentos forçados
e fragilidade social, a sociedade civil sustenta que garantir a protecção
integral da criança em Cabo Delgado é não apenas uma obrigação legal do Estado,
mas uma urgência moral e humanitária. (MRTV)

Enviar um comentário