Cabo Delgado: Pânico social e boatos de feitiçaria provocam cinco mortos e 25 detidos



‎Autoridades apelam à calma e denunciam desinformação como principal causa da violência

‎A província de Cabo Delgado registou, desde o dia 18 de abril, pelo menos cinco mortes e dezenas de feridos na sequência de uma onda de pânico social alimentada por rumores de feitiçaria, anunciaram esta semana as autoridades, durante uma conferência de imprensa conjunta entre a Polícia da República de Moçambique (PRM) e o setor de Saúde.

‎De acordo com o Comando Provincial da PRM em Cabo Delgado, os incidentes estão ligados ao incitamento à desobediência coletiva, motivado por acusações infundadas de que certos indivíduos teriam a capacidade de “encolher” órgãos genitais, sobretudo masculinos, após um simples toque. A crença tem desencadeado atos de violência, incluindo linchamentos.

‎No período em análise, foram registados 17 casos nos distritos de Mocímboa da Praia, Palma, Pemba, Metuge, Chiúre, Muidumbe, Ibo, Montepuez e Macomia. Destes, resultaram cinco óbitos, nomeadamente em Mocímboa da Praia (1), Ancuabe (2), Montepuez (1) e Metuge (1).

‎A PRM anunciou ainda a detenção de 25 indivíduos suspeitos de envolvimento na propagação dos boatos e na incitação à violência. Foram igualmente instaurados nove autos, incluindo seis de notícia e três de denúncia.

‎“O nosso apelo é para que a população não faça justiça pelas próprias mãos. Qualquer suspeita deve ser comunicada às autoridades competentes”, afirmou Fikiri Nyito, comandante provincial, sublinhando que forças operativas estão posicionadas em locais estratégicos para prevenir novas ocorrências.

‎Saúde descarta qualquer evidência científica

‎Por sua vez, o setor de Saúde esclareceu que não há qualquer evidência científica que sustente os alegados casos de “encolhimento” dos órgãos genitais. Segundo o diretor provincial de Saúde, Edson Fernando, cinco indivíduos foram observados em unidades sanitárias — quatro no Hospital Provincial de Pemba e um em Mocímboa da Praia — sem que se tenha verificado qualquer alteração anatómica.

‎Apesar disso, os serviços de saúde atenderam 24 vítimas de agressões físicas relacionadas com o pânico, das quais quatro em estado grave e cinco resultaram em óbito.

‎“Trata-se de um fenómeno de pânico social coletivo, onde o medo se sobrepõe à realidade”, explicou Edson Fernando, acrescentando que foi criado um grupo técnico multidisciplinar, composto por médicos, psiquiatras, psicólogos e peritos legais, para acompanhar os casos.

‎As autoridades de saúde associam a propagação do fenómeno ao trauma vivido pela população devido ao terrorismo na região, que contribui para um ambiente de medo e vulnerabilidade à desinformação.

‎Apelos à responsabilidade social

‎Tanto a polícia como o setor de Saúde apelaram à população para evitar a disseminação de rumores, sobretudo nas redes sociais, e encorajaram a denúncia de indivíduos que promovam a violência.

‎“As pessoas devem manter a calma, evitar a propagação de informações não confirmadas e procurar assistência médica sempre que necessário”, reforçou o diretor de Saúde.

‎As autoridades reconhecem que o fenómeno é novo no contexto nacional e garantem estar a trabalhar em coordenação com líderes comunitários, religiosos e instituições públicas para travar a escalada de violência.

‎Entretanto, a PRM alerta que a continuidade destes actos pode comprometer o funcionamento normal da sociedade, afectando serviços essenciais, o acesso à educação e a circulação de pessoas.(MRTV)

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