Cabo Delgado: Cidadão espancado até à morte por suspeita de feitiçaria “que faz desaparecer sexo”

Um cidadão perdeu a vida no distrito de Mocímboa da Praia, na província de Cabo Delgado, após ter sido brutalmente agredido por populares que o acusavam de envolvimento em alegadas práticas de feitiçaria. O caso ocorre num contexto de crescente agitação social associada a rumores segundo os quais indivíduos, ao tocarem os ombros de terceiros, provocariam alterações nos órgãos genitais, sobretudo masculinos.


De acordo com a Polícia da República de Moçambique (PRM), o episódio resultou também na detenção de cinco pessoas, indiciadas por crimes ligados à desordem pública e incitamento à desobediência colectiva. As autoridades classificam o caso como homicídio agravado, resultante de um acto de justiça pelas próprias mãos.



Segundo a porta-voz do Comando Provincial da PRM em Cabo Delgado, Eugénia Nhamussua, a onda de rumores não se limita a Mocímboa da Praia, tendo já sido registada igualmente nos distritos de Palma, Mueda e na cidade de Pemba.


“Até o momento, tivemos o registo de dois detidos em Palma por incitamento à desobediência colectiva e três na cidade de Pemba. Estes casos ocorreram nos dias 20 e 21, correspondentes a segunda e terça-feira”, explicou.


Eugénia indicou ainda que foram registados episódios de aglomeração e tensão social em vários pontos, com destaque para o bairro de Cariacó, zonas sob jurisdição da terceira esquadra, área de expansão, bem como nas localidades de Chuíba e Mahate, onde grupos de populares protagonizaram manifestações de desconfiança e violência.


A PRM esclarece, contudo, que não existe qualquer evidência que comprove a existência das alegadas práticas de feitiçaria, sublinhando que os detidos estão relacionados exclusivamente com actos criminosos, como vandalização de bens e incitação à violência.


“Estamos a falar de pessoas envolvidas em desordem pública e incitamento à desobediência colectiva. Tivemos casos em que viaturas foram danificadas por apedrejamento. Estes são os crimes que a polícia pode responsabilizar. Quanto às acusações de feitiçaria, a lei não nos permite responsabilizar alguém com base nisso”, afirmou Eugénia Nhamussua.



A polícia acrescenta que, em situações de suspeita, os indivíduos acusados têm sido retirados dos locais de tensão e encaminhados para unidades sanitárias e policiais, como forma de garantir a sua integridade física e evitar novos episódios de violência.


Entretanto, o clima de medo e incerteza tem levado algumas comunidades a recorrer a práticas consideradas de autoproteção, como o uso de elásticos e alfinetes em partes do corpo, na tentativa de prevenir o suposto fenómeno. Ainda assim, persistem dúvidas quanto à eficácia dessas medidas, que não têm qualquer validação científica.


As autoridades apelam à população para que evite disseminar rumores e rejeite actos de violência, reforçando que qualquer suspeita deve ser comunicada às entidades competentes. A PRM alerta que fazer justiça pelas próprias mãos constitui crime e agrava o cenário de insegurança, podendo resultar em consequências legais severas.


O caso reacende o debate sobre o impacto de crenças e desinformação em contextos de fragilidade social, onde rumores podem rapidamente desencadear episódios de violência colectiva, com consequências trágicas, como a perda de vidas humanas.(MRTV)


 

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